24/10/2026

A idade além da velhice

Tarcisio Miguel Sevegnani
Foto: David Vives, Pexels
CrônicaA gente mira os sessenta e, quando percebe, já chegou aos setenta. Insiste, resiste, e sem aviso, são oitenta. O tempo não pede licença, não espera nossa disposição. Ele simplesmente acontece.O corpo, antes ágil, já não responde como antes. O esportista, o trabalhador incansável, ficaram pelo caminho. Agora, a dor se instala, os remédios se acumulam, e a contagem dos dias se torna um exercício de paciência.Levanto-me cedo, como sempre fiz. Mas agora, a cama parece ter uma força gravitacional própria. O espelho já não reflete aquele rosto familiar, e a memória, às vezes, brinca de esconde-esconde. O que mesmo eu ia fazer?Os netos e bisnetos correm pela casa. Querem bem a mim, mas também querem me ensinar a viver. Os tempos mudaram, dizem eles. As tecnologias avançam, os valores se transformam. E eu me pergunto: como acompanhar um mundo que já não se molda a mim?Então, faço minha escolha.Vou viver o agora, porque o amanhã se tornou incerto demais.Vou andar para onde puder, como puder, ainda que a passos lentos.Sentir a brisa no rosto, o vento forte arrepiando a pele, a chuva lavando os pensamentos.Vou sentir o frio das manhãs de inverno, a geada cobrindo a terra, a névoa silenciosa.Sentir meu corpo, minhas mãos, meus olhos que tanto já viram.Sentir o orgulho de ainda poder me mover por conta própria.Vou me permitir o calor de uma mão entrelaçada na minha,Ou de um corpo quentinho, colado ao meu, sem pressa, sem obrigações.Ouvir os sons da vida, os risos das crianças,E quem sabe, até soltar um canto meu.Vou saborear a comida, não só pelo paladar, mas pelo prazer de prepará-la.Sentir o vinho girando na boca, aquecendo o ser.Escutar o murmúrio do mundo, ver o olhar inocente dos pequenos,E lembrar que a vida continua, mesmo quando parece desacelerar.O mundo vibra, gira e se agita, nem sempre ao nosso bem-querer.E eu? Eu apenas sigo vivendo.Viver intensamente, até o último instante,Seja no lento morrer ou no súbito partir.Porque, no fim, o que realmente importa não é o tempo que passou,Mas o quanto ainda há de vida nos dias que restam.

tmSevegnani